Sexta-feira, Dezembro 16, 2011

leve

é preciso ser leve.

pois assim as dores do corpo doem mais que as dores da alma, e essas desaparecem.

não esperar, pois assim o que chega é sempre surpresa, é sempre ganho.

sem esperança não há desespero, portanto não há decepção.

leveza. o leve voa, flana, não pousa, desaparece, se esvanece. como o bateau îvre de rimbaud.

Terça-feira, Outubro 11, 2011

o que posso?

hummm. que escrever? gostaria de escrever sobre pele. contato de pele. como escrever?

pode-se escrever sobre beijos roubados? lábios macios...
talvez não, talvez não se possa escrever.

como descrever? shakespeare disse pela boca de cleópatra: "a eternidade estava em nossos lábios e nossos olhos". posso isso escrever? não, não posso.

posso escrever sobre abraços fortes. mas posso mesmo? escrever sobre corpos que se entrelaçam? posso escrever sobre desejo?

posso escrever sobre os dedos dançando na nuca? pernas sobre pernas? conversas intermináveis? eu sou todo ouvidos, ou sou todo mãos? que devo ser? pilantra ou príncipe, ou os dois?

devo sair cedo ou dormir ao lado? dormir abraçado? pedalar de volta pra casa com um sorriso no rosto, cumprimentando os ciclistas que encontro que são os primeiros a acordar na cidade que começa a semana, enquanto eu termino o domingo nos resquícios da escuridão da noite?

o que posso? não, nada posso, cachorro de rua que sou, gato sem raça com orelhas rasgadas em brigas, bicho abandonado que, de tanto chutado acostumou-se a arreganhar os dentes mesmo à mão que o quer afagar.

o homem é o homem e suas circunstâncias. quais são as minhas?

o que posso?
no fim eu nada posso.

Terça-feira, Dezembro 21, 2010

gatos





eu não gosto de mulheres que não gostam de gatos.
pois gatos são gatos, mordazes e sarcásticos em relação aos nossos caprichos humanos.
gatos são diferentes. nascem sem bolsos, sobrevivem ao abandono. claro, a vida lhes traz então cicatrizes do abandono, e eu tb tenho minhas imensas cicatrizes da vida, nas mãos, no pescoço, qual um gato de rua, um vira-latas sem eira nem beira, sem dona, mas livre para miar ao luar.
é fácil gostar de cães: eles chegam lambendo, abanando os rabos, como muitos homens o fazem também.
mas gatos são gatos, não fazem isso a quem ainda não provou ser confiável para tanto.
mulheres que não gostam de gatos não sabem estabelecer relações duradouras. pois não sabem que o silêncio dos gatos tem muitos significados, podendo ser o silêncio da serenidade diante da companhia feliz ou o silêncio da recuperação dos machucados da vida.
gatos são gatos, e mais nada. não servem pra nada. não buscam o jornal, não dão a patinha, não afastam ladrões e quando trazem um presente são um desastre: um rato morto é entregue na cama da dona, que foge horrorizada.
gatos são gatos. poucos são bonitos, no mais das vezes são meros vira-latas pulguentos.
e gatos são um desastre com 4 patas, um rabo e muitos pelos, derrubando os cristais, rolando nos tapetes, arranhando o sofá.
mas eu não gosto de mulheres que não gostam de gatos. pois uma mulher que não entende o quanto um gato se diverte com uma mera bolinha de papel nunca entenderá meu gosto por bicicletas velhas, por leituras estranhas, por línguas esquisitas escritas da direita pra esquerda, por pedalar no meio da noite e ouvir músicas esdrúxulas.
eu não gosto de mulheres que não gostam de gatos, pois elas não sabem que, conforme afirmava t.s. eliot, gatos tem 3 nomes: um comum, um nome fantasia e um nome que só ele sabe, e esse eu não conto pra ninguém.
gatos são apenas um desastre com 4 patas, um rabo e muitos pelos, muitas cicatrizes, e uma pretensão gigantesca seis vezes maior que seus corpos.
e mulheres que não gostam de gatos são aquelas que não perceberam quem um gato não é um cachorro.

Quinta-feira, Maio 20, 2010

TEMPO

houve um tempo em que se era feliz sem se perceber o quanto. mesmo que muitos problemas houvessem, havia algo de pequena felicidade no ar, a urgência de viver dos mais novos a invadir nossas idéias, a sensação de, sim, ser possível algo mudar em algum lugar.

mas tudo isso se quebra numa penada. enquanto eu dormia num leito hospitalar com um desfibrilador ao lado, vivendo um pequeno inferno pessoal e natalino, penadas faziam desmoronar o sonho de realização de muitos.

agora resta apenas a saudades de um tempo em que havia sim um bom curso de direito numa instituição particular em catanduva. não há mais, o último sopro de qualidade desfez-se hoje coma demissão sumária do último colega a restar por lá.

os inimigos qualificam-nos, os amigos também. são muitos os que me dão saudades, mas não a vontade de lá voltar.

saudades de marcelas, paulas, tatis, patis e gabis, giovanas e letícias, otílias, driellys, brunas, marias, julianas, christinas, e tantas meninas que ao meu lado sentaram, suas vidas contaram, seus risos gargalharam e suas lágrimas choraram, tantas vezes segurando minhas mãos, e meus braços seus abraços.

saudades de quem posso rever, e imensas saudades de quem não posso mais ver, renatas que nos fazem sofrer, ausência dolorida, tristeza imensa, quanta saudade!

Quarta-feira, Fevereiro 24, 2010

TEMPO

há tanto tempo não posto nada, que não sei dizer o que tanto ocorreu neste espaço vazio.

o mundo gira, a vida escorre, o trabalho absorve, o sono se vai com a tranquilidade que nunca tive. olhar o passado pode ser apenas um exercício masoquista: ter saudades de um tempo que sabemos, no fundo, que foram uma merda.

acabei de ver um filme, chamado "ao entardecer". o filme é bom, o tema é ruim: as memórias de uma mulher que está à morte. a pergunta que me restou: o que é uma vida que valha à pena ser vivivda?

Sábado, Junho 21, 2008

NARCISISMO

acredito que após seis meses de silêncio neste espaço, talvez caibam algumas palavras. não tenho silenciado, apenas escrito por aí, em outros cantos.

escrever é algo um tanto narcisista. acreditar que alguém lerá. acreditar que alguém compreenderá. acreditar que alguém gostará.

mas tudo isso é vaidade e correter atrás do vento, como diria o qohelet. é umpouco de narcisismo. talvez por isso o silêncio: não sou narcisista a esse ponto.
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um conhecido faz residência empsiquiatria. um de seus pacientes mais engraçados é um narcisista. ele sempre diz, a cada consulta, que as coisas vão bem, afinal, ele é tratado pelo "melhor psiquiatra do mundo". claro que ele tem o melhor psiquiatra do mundo: apenas uma pessoa muito especial seria tratada pelo melhor psiquiatra do mundo, não é?
pessoas que elogiam demais são narcisistas. afinal, só uma pessoa brilhante estaria cercada de gente brilhante.
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gente brilhante é uma expressão contraditória. se é gente não é brilhante e vice-versa. somos uma espécie caminhando para a auto-extinção, basta olhar em volta para perceber.
os cérebros andam amortecidos.
os corpos não mais se mexem, encaixotados em carros.
desaparece a linguagem mais refinada.
desaparece a natureza sob os pés humanos, que pisoteiam todo o planeta.
nos tornamos ambientalmente inviáveis e, se ambientalmente não somos viáveis, simplesmente não somos viáveis.
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no devido tempo seremos substituídos por outra espécie. ou simplesmente nossos ossos ressecados um dia vriarão apenas pó, pó a cobrir um planeta morto, como o é marte.
mas a loira platinada que desce do audi com a imensa bolsa vermelha de couro, no estacionamento do shopping, não pensa nisso. pois não pensa.
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vou me repetir:
os anjos caem. os humanos apenas decaem.

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

khaldun

brincando com deleuze & guattari (mil platôs, v. 5) vejo uma referência a um autor que abordei em minha dissertação, ibn khaldun. eu gostaria de ter sido ibn khaldun. viajante. juiz. diplomata. erudito. e, sobretudo, um observador genial da sociedade, a ponto de ter pensado ter descoberto uma nova ciência (no conceito medieval de ciência), mas descobriu duas: sociologia e historiografia. nada mal pra quem morreu em 1406, quando sua genealogia já tinha uns 700 anos... sim, um ancestral seu havia sidocompanheiro do profeta muhammad.
khaldun é um intelectual do desmonte de al-andalus, quando já ocorria a retomada de al-andalus pelos cristãos. viveu também no cairo, e depois foi negociar com tarmelão a não invasão de damasco ou bagdad... não conseguiu o intento, mas saiu vivo, numa época em que era costume executar os embaixadores do outro país, quando não havia acordo entre as partes...

anos ddepois de sua morte ocorreria o ocaso da civilização árabe, e a ascensão dos turcomanos. como khaldun previra em seus "prolegômenos", os reinos vêm e vão. as dinastias se sucedem, há uma corrupção, uma degradação que enfraquece os reinos após algumas gerações... uma espécie de entropia, débâcle...

khaldun há de ser estudado, não apenas como uma curiosidade avant la lettre no meio medieval, um espírito além de seu tempo. há o que se recuperar em suas idéias, no mundo moderno da geração e corrupção contínuas.